11 de junho de 2018
CARLOS LUIZ POISL

Por JFBF

Quando seus filhos, ontem, me pediram para falar nesta cerimônia, aceitei imediatamente, honrado com a missão.

Tenho tido vivencias e experiências muito gratificantes no convívio com o seu Carlos.

Há 54 anos, quando eu tinha 16, candidatei-me a uma vaga no Cartório Poisl, e fui admitido. Depois de 6 meses, quis passar a trabalhar somente um turno para dedicar-me aos estudos. Eu acertar minha saída ele me disse: “é uma pena guri, pois tu levas jeito pra essa coisa”...

Depois de formado em Direito e advogando por 3 anos, ele me chama no tabelionato? - então na Galeria Hamburguesa -  me diz: Oi guri, queres voltar ao trabalhar aqui? – se o senhor estiver pagando melhor posso pensar no assunto... e acabei retornando em março de 1976, como seu substituto.

Nos primeiros dias ele me avisa que iria se afastar por 2 meses, no mínimo, para escrever um livro sobre imóveis rurais e me orientou a respeito de seus funcionários da época e que eu deveria gerenciá-los e “tocar o tabelionato”. Cumprimos a tarefa e ele colocou no prefácio do livro: agradeço aos meus funcionários que mantiveram o funcionamento do tabelionato perfeitamente, mas refiro uma pequena tristeza: “minha ausência sequer foi sentida”...

Tempos depois, já no prédio atual do tabelionato, ele redige o primeiro artigo de legislação no Brasil, tratando da escritura pública. Convence o então deputado federal Lelio Souza a encampar a ideia e ela se torna um artigo no Código Civil Brasileiro, que permanece até hoje, no novo código.

Mais adiante atendi duas senhoras de Lomba Grande que me procuraram porque queriam assegurar uma a outra direitos decorrentes de sua “relação estável”, e ele me orienta a lavrar uma escritura declaratória e me informa que passaria a pleitear a inclusão na legislação brasileira do que veio a se denominar a ATA NOTARIAL. Assim, nas normas da CGJRS, já em 1990 se introduz artigo tratando do tema, redigido por Poisl, e que veio a se tornar artigo da Lei Federal dos notários, em 1994, com a mesma redação criada por ele.

Poderia tratar durante horas tantas as iniciativas e inovações de Carlos Poisl.

Mas neste momento prefiro tentar traduzir um pouco de sua personalidade, impregnada de uma bondade e humildade marcantes. Sua simplicidade talvez tenha sido a maior característica, aliada a um humor fino e marcante, retratado nas suas gostosas gargalhadas.

Com uma cultura ímpar não só em temas notariais, mas em conhecimentos gerais, ele mantinha sempre essa postura de simplicidade que o fez, por exemplo, dar livros de sua autoria para o Ubirajara, nosso encarregado do estacionamento do tabelionato, com uma dedicatória dizendo: “para o Bira, que cuida tão bem do meu carro e as vezes precisa manobrar para eu não bater nos demais”...

Poisl tinha essa gana de viver, de dirigir, de viajar, de criar, de trabalhar denodadamente pelo notariado brasileiro e mundial, tanto que recebeu as mais altas condecorações aqui e no exterior.

Mas também gostava de jogar seu tênis com os amigos, de “tomar uns tragos a mais”,  no final de ano no Aliança, de jogar seu poker com os amigos nas quartas feiras, de saborear o frio em São Chico, fazendo questão de nos ligar quando começava uma neve por lá: Flávio, sobe a serra que a neve está linda, e só desligava quando eu prometia que já estava saindo...

Poisl foi e continuará sendo para nós essa figura simples e querida. Sempre que ia no tabelionato, perguntava para nossa secretaria: “o patrão tá ai?”... tá ocupado?... – e ela sugeria que ele marcasse uma hora para que eu pudesse recebe-lo com tempo, mas ele dizia, não te preocupa, eu sou vagabundo, posso voltar mais vezes até que ele possa me receber...

Lembro de outra passagem numa inauguração de novas oficinas no Grupo Sinos, quando, na entrada, nos perguntavam o nome e a profissão, e ele dizia com orgulho, ao lado de dona Dalila: eu sou Carlos Poisl, - motorista de madame.

Depois de ter se aposentado, inauguramos uma sala no tabelionato chamada SALA TABELIÃO CARLOS POISL, e o convidados para a celebração daquele momento, com uma pintura feita pelo Rogerio Rauber, e um barril de chopp. Ele disse: pensei que depois dos sessenta eu mais me emocionaria, mas hoje...

Por tudo isso, por seus 4 filhos queridos e todos seus netos, pela Liti Belinha, pela saudosa companheira e mãe de seus filhos dona Dalila, familiares, ex-funcionários, enfim amigos de todos os rincões, celebramos neste momento essa passagem do Poisl, ele que também foi um dos fundadores e mantenedores da FUNDAÇÃO SEMEAR, que tanto nos orgulha – e cuja mensalidade faço questão de manter em sua memória, até o dia em que eu volte a conviver com ele em outras paragens.

Este momento é, na verdade, a última dança de um guerreiro. Não aquele efeito à violência, mas alguém que sempre lutou as lutas da vida. E que acumulou poder em suas lutas, em suas vitórias e em suas derrotas, de sorte que a morte lhe permitiu que dance a sua última dança.

E a melhor homenagem que podemos lhe prestar, além de todas que mereceu e recebeu em vida, é a gratidão e a generosidade que faz permanecer e prosperar o seu legado. 

Como ele mesmo pediu, no hospital, nas vezes em que nos encontramos lá, quero ter uma morte digna. Por isso peço a todos que não choremos nem lamentemos, neste momento. E que tratemos de louvar, não a morte, mas a vida de Carlos Luiz Poisl.

Em vez de chorarmos por ele, que o homenageemos, o seu exemplo, e ter sido nosso verdadeiro mestre.

Do fundo do coração quero que todos nós, filhos e demais parentes, amigos e admiradores dele, permaneçamos a cada dia honrando esse seu legado de vida, com a simplicidade e autenticidade que reflete essa imagem linda de CARLOS LUIZ POISL.